Crônicas
Correr atrás do prejuízo
O título acima não tem lógica e é criticado pelos gramáticos. Significa esforçar-se para recuperar perdas — exatamente o que nós, mulheres, fazemos a vida toda.
Por: Marilene Depes em 13 de março de 2026
O título acima não tem lógica e é criticado pelos gramáticos. Significa esforçar-se para recuperar perdas — exatamente o que nós, mulheres, fazemos a vida toda. E a submissão que nos é imposta há séculos não é revertida.
Já fomos mortas, acusadas de bruxaria, apenas porque possuíamos aptidões especiais. Já fomos perseguidas por instituições que deveriam nos proteger. Fomos acusadas de libertinas pelo simples fato de possuirmos dons artísticos e de exercê-los. Somos obrigadas a aceitar traições, grosserias e indelicadezas, exatamente de quem se comprometeu a nos amar. Somos responsabilizadas pela loucura do homem que mata os filhos para nos atingir por tabela.
E as leis se avolumam: Maria da Penha, Carolina Dieckmann, Feminicídio, Minuto Seguinte. Temos a nosso favor as Delegacias da Mulher, a Polícia Militar, a Patrulha Maria da Penha, Casas Abrigo, CREAS, Defensorias Públicas e o Ministério Público. As mulheres podem denunciar ou registrar boletins de ocorrência, requerer medidas protetivas, realizar exame de corpo de delito, obter assistência judiciária gratuita, abrigamento, acolhimento e assistência psicossocial.
Diante de todo o quadro de assistência e proteção oferecido à mulher, como entender que a violência aumenta a cada ano? Os assassinos não respeitam medidas protetivas, tornozeleiras eletrônicas, a Patrulha Maria da Penha, nem a Campanha do Laço Branco — o maior movimento de homens que repudiam a violência contra as mulheres.
Enquanto os homens não se desconstruírem de seus comportamentos machistas; enquanto as mulheres não se libertarem da submissão imposta pelo patriarcalismo; enquanto as mães não se conscientizarem de que o machismo é construído no seio da família — onde mulheres se submetem aos maridos, dando educação libertária aos meninos e mantendo meninas reclusas na partilha das atividades domésticas —, o quadro não se reverterá. Em muitas casas, as meninas são submetidas a abusos, e as mães se calam por medo, respeito ou covardia.
Enquanto isso, vamos correndo atrás do prejuízo, aguardando que mais mulheres e homens conscientes se unam nessa luta. E que venha o Dia Internacional das Mulheres, com menos flores e mais atitudes.