Crônicas
Memórias do Carnaval
Curto cultura popular e, em especial, o Carnaval. Participei da fase áurea do Carnaval de Marataízes, com o Iate Clube em seu apogeu, recebendo foliões de toda parte do Brasil, além de blocos de rua famosos.
Por: Marilene Depes em 23 de fevereiro de 2026
Curto cultura popular e, em especial, o Carnaval. Participei da fase áurea do Carnaval de Marataízes, com o Iate Clube em seu apogeu, recebendo foliões de toda parte do Brasil, além de blocos de rua famosos.
O Carnaval do Iate Clube durava quatro noites, além do Baile do Havaí, realizado no sábado anterior. O clube lotava, o povo se espremia no meio do salão, e as pessoas tinham prazer em se fantasiar — principalmente porque as fantasias individuais, as duplas e os blocos eram premiados. Os foliões mais animados recebiam as coroas de Rei e Rainha do Carnaval.
O ápice ocorria na manhã da quarta-feira, quando os foliões, ainda repletos de energia, saíam pelas ruas até a Praia Central, onde caíam no mar com suas fantasias.
A Banda de Zé Nogueira tocava apenas sambas-raiz e marchinhas, intercaladas pelos refrões das músicas dos times de futebol. Em nenhum momento o salão ficava vazio; a energia da banda e dos foliões era contagiante. O único tempo de descanso acontecia durante as premiações.
O Iate Clube possuía uma vasta varanda de frente para o mar, espaço reservado para os casais mais afoitos trocarem juras de amor, abraços e beijos. Naquele tempo, essas manifestações não eram permitidas em público. O presidente do clube, Sr. Élcio Sá, a fim de evitar transtornos, requisitava da Usina Paineiras os funcionários mais fortes e os posicionava em locais estratégicos, fazendo a segurança. Élcio Sá era tão respeitado que recebeu até o título de Comodoro.
Então surgiram os trios elétricos, e o Iate Clube foi se esvaziando. O som, as luzes e o apelo dos trios foram matando a tradição. Esta se mantém por meio dos blocos de rua e de quem abre suas residências para comemorar, com amigos, a folia de Momo.
Por décadas, promovi em Marataízes um Carnaval de sambas, marchinhas e fantasias. Em todos esses anos, fui perdendo amigos e estímulo, e decidi encerrar. Porém, constatei neste ano que tentei sair do Carnaval — e ele não saiu de mim. O batuque do samba ferve em meu sangue, e tenho a certeza de que não será comigo que a tradição vai morrer.
O acervo que possuo é vasto e carrega história; sinto doer na alma ter que aposentá-lo. Talvez surja outra proposta, sem perder as raízes.
“Não deixarei o samba morrer, não deixarei o samba acabar.”