Comportamento
Mulheres mostram presença cada vez maior no agronegócio cooperativista do Espírito Santo
A publicação, compilada pelo Sistema OCB/ES, traz um raio-x do setor, que movimentou R$ 6,3 bilhões e respondeu por 37,1% de todo o faturamento do cooperativismo estadual em 2024
Por: Redação em 21 de março de 2026

A força e o protagonismo feminino têm ganhado contornos cada vez mais marcantes no mercado de trabalho e, no cooperativismo agropecuário capixaba, esse panorama não é diferente. Com mais de 46 mil cooperados, as organizações cooperativistas do agronegócio capixaba registraram um aumento expressivo no percentual de mulheres em seu quadro de produtores associados, conforme dados divulgados no Anuário do Cooperativismo Capixaba 2025. A publicação, compilada pelo Sistema OCB/ES, traz um raio-x do setor, que movimentou R$ 6,3 bilhões e respondeu por 37,1% de todo o faturamento do cooperativismo estadual em 2024. Atualmente, o Espírito Santo abriga 25 cooperativas ligadas ao agronegócio.
O total de mulheres no segmento aumentou de 12,8% para 13,7% entre 2022 e 2024 – um crescimento de 1,4%, conforme o relatório. Em sua maioria, são mulheres na faixa etária de 30 a 59 anos (67,3%), seguidas pelas com mais de 60 anos (25,1%) e das com até 29 anos (7,6%). No que diz respeito aos cargos de liderança, a atuação das mulheres como diretoras e gerentes nas cooperativas do agro cresceu de 20,5% para 22,2% em 2024. Dessas, 18,1% têm mais de 30 anos e 4,1% têm faixa etária de até 29 anos.
Produção premiada em família – No alto das montanhas de Castelo, a produtora rural Edineia Pires Sartori vem construindo uma trajetória que une tradição, resiliência e inovação. À frente do Recanto Feliz, propriedade de 12 hectares que conduz com o marido Valentim Fioresi – um terço da qual é dedicado ao cultivo do café -, Edineia administra também, no mesmo município, o Sítio Sertãozinho, mas em parceria com seu irmão. Com ele, Edineia conquistou o 2º lugar na categoria “Arábica Lavado”, no Prêmio Pio Corteletti 2023. Realizado anualmente, o Pio Corteletti é uma iniciativa da Nater Coop que busca valorizar a produção de cafés especiais no Espírito Santo e em Minas Gerais.
“O nosso grande diferencial está no investimento em processos pós-colheita”, explica Edineia. Em 2020, a família adquiriu o próprio despolpador e passou a separar diariamente, nos dias quentes, o grão da casca do produto, o que elevou o padrão do café produzido no Sertãozinho. Implantada por ela, a melhoria no processo produtivo da lavoura trouxe como resultado uma bebida reconhecida, premiada e de referência regional.
Aposta certa no improvável – Única mulher que atua na produção de café em Santa Teresa, a cafeicultora Jarlete da Penha Sotelle revolucionou a forma como o conilon é produzido na região serrana. Visionária, ela decidiu apostar na cultura, conhecida por ser tipicamente característica de áreas mais quentes. Mesmo quando muitos lhe diziam que não daria certo, Jarlete provou que o conilon pode alcançar excelência em altitudes superiores a 800 metros, projetando Santa Teresa no mapa dos cafés especiais da variedade.
Hoje, ela é um dos maiores nomes do conilon especial do Espírito Santo, acumulando conquistas nacionais e estaduais, como o título de campeã na categoria “Canéfora” do concurso nacional ABIC – safra 2022. Como resultado da sua visão de futuro, Jarlete foi também finalista do Coffee of the Year, principal prêmio de cafés especiais do Brasil, além de ser destaque recorrente em prêmios ligados à sustentabilidade.
Maior cooperativa do segmento do agronegócio (agricultura e pecuária) do estado, na Nater Coop, a representatividade do público feminino vem se tornando cada vez mais evidente nos últimos dez anos, num movimento que acompanha o cenário registrado no mundo agrocooperativista. O número de mulheres no quadro de cooperados saltou de menos de 950 em 2015 para mais de 3.400 atualmente, uma evolução de 260%. São mulheres com diferentes histórias, sonhos e experiências de vida que, como cooperadas ou líderes, participam ativamente das atividades da cooperativa e vêm transformando os rumos da instituição e do agronegócio capixaba.
Liderança técnica na pecuária leiteira – Em meio a esse cenário de expansão, a atuação das mulheres se destaca não somente pela sensibilidade no cuidado com a terra, mas também pela competência técnica e pela inovação aplicada aos processos. À frente de um cargo desafiador em uma área ainda predominantemente ocupada por homens, a médica veterinária Juliana Maria Piassi é gerente de Assistência Técnica da Nater Coop. Natural de Nova Venécia, aos 36 anos, ela já ocupa o cargo há dois anos e é considerada uma referência na cadeia leiteira regional, tendo se tornado também fonte de inspiração e porta-voz da força feminina na pecuária.
“Além de liderar a equipe técnica de pecuária leiteira, estou diretamente envolvida na organização e na condução de iniciativas importantes desenvolvidas pela Nater Coop, como o Clube da Bezerra e o Torneio de Silagem, eventos que promovem conhecimento, a troca de experiências entre os cooperados e o fortalecimento da pecuária leiteira na região”, explica Juliana. Ela também é responsável pela condução de projetos estratégicos realizados pela Nater Coop, como o Programa de Assistência Técnica Leite Certo, no qual acompanha de perto as propriedades rurais e orienta os produtores para garantir boas práticas, produtividade e qualidade na produção.
“Estou nessa função há dois anos, trabalhando diretamente com produtores e com o desenvolvimento das propriedades leiteiras. Na minha trajetória dentro do agronegócio e do cooperativismo, tenho observado um crescimento muito significativo da presença feminina em posições estratégicas. Acredito que isso acontece porque as mulheres trazem uma combinação muito importante de conhecimento técnico, sensibilidade na gestão de pessoas e grande capacidade de organização, além de um forte comprometimento com os resultados”, declara.
E Juliana não para por aí: entre as suas atribuições diárias no cargo de gerente está também a supervisão da qualidade do leite recebido na indústria de lácteos da cooperativa – a Veneza –para assegurar que o produto oriundo das propriedades dos cooperados atenda aos padrões exigidos pelo mercado. Ela ainda é responsável pela Farmácia Veterinária, na qual apoia os produtores com orientações técnicas e soluções voltadas à saúde e ao bem-estar animal.
“Como médica veterinária e atuando diretamente com produtores dentro de uma cooperativa, percebo no dia a dia o quanto a presença feminina agrega valor, tanto no campo quanto na gestão. As mulheres têm uma forma muito colaborativa de trabalhar, sabem ouvir, construir soluções em conjunto e se dedicam muito para que as propriedades e as cooperativas evoluam de forma sustentável. No cooperativismo capixaba, vejo que a participação das mulheres tem fortalecido ainda mais os princípios do cooperativismo. Quando as mulheres têm espaço para contribuir e liderar, todo o sistema se torna mais forte, mais humano e mais preparado para os desafios do futuro”, pontua.
“Numa área ainda majoritariamente masculina como a pecuária, a Juliana conquistou esse espaço, atuando nessas diversas frentes com muita competência e segurança. Firme em seus posicionamentos e na condução das equipes, dos cooperados e na tomada de decisões, ela é hoje uma referência no setor”, relata Wayne Gardner, gerente de Pessoas e Comunicação da Nater Coop.
Juliana, Edneia e Jarlete são apenas alguns desses exemplos reais da representatividade e da força feminina no agronegócio capixaba. Verdadeiros exemplos de liderança, inovação e excelência, elas são pioneiras na inclusão e na valorização feminina numa área que em que a presença masculina é majoritária.