Crônicas

O Amarelo e a Serra

Quando o tempo passa e gradativamente perdemos a força, e desejo, de realizar coisas simples que até então nos fazia feliz, certa melancolia nos invade.

Por: Sergio Damião em 14 de julho de 2021

Quando o tempo passa e gradativamente perdemos a força, e desejo, de realizar coisas simples que até então nos fazia feliz, certa melancolia nos invade. A perda se apresenta nas lembranças, na capacidade do pensamento, na caminhada claudicante, na lentidão dos passos… A memória queima como queima um ácido em pele. De tudo que sentimos, a maior dor é saber que é algo inexorável. A cada dia, cada vez que o tempo se distancia da infância, que se distancia dos detalhes do Cais para os aviões que nunca vi pousar e nem mesmo partir, a cada novo dia, mesmo que não seja ensolarado, mesmo que esteja coberto de nuvens e anunciando as chuvas de muito esperadas, ainda que não possa caminhar, encontro um Cachoeiro que me cobre os olhos por conta de sua natureza. A topografia sulina com suas montanhas permite visualizar a beleza do alto. Talvez seja porque do alto ultrapassamos as mazelas humanas e os nossos sentidos se liberem, ou mesmo porque, do alto suplantamos nossas limitações e damos chances à nossa imaginação. Um desses lugares para admirarmos a cidade é o morro que fica a torre da televisão: Serra das Andorinhas. Com atenção seguia os que buscavam as coisas no tempo, a corda aparecia na queda d´água que não mais existe e retornava no tronco da figueira que oferecia uma grande sombra. De uma chapada vê-se a pedra lascada que fica no distrito de Santa Tereza. Logo adiante, ouvem-se ruídos, ruídos de água deslizando na pedra: uma nascente, a nascente do Córrego Amarelo. A leitura me trouxe a descrição deste córrego nas reminiscências do nosso cronista Rubem Braga. Ao retornar à cidade se dizia triste, o córrego de sua infância estava morrendo e a piaba não podia mais ser pescada, o córrego virara um pequeno enlameado. Voltei minha atenção ao ruído. Não! Não era água a deslizar-se na pedra, e sim: a lágrima da natureza caindo na pedra. Era a nascente chorando ao saber da tristeza do cronista. Na ocasião, dias antes, visitara a Serra do sul do país e provei da costela na vala dos campos gaúchos. Tempos atrás, ao descer da Serra da Andorinha, descobri que no sul do Espírito Santo, na Toca do Gambá, no bairro São Geraldo, era possível uma carne especial sem o bafo nem vala para se preparar a melhor costela.