Crônicas

Traumas

Numa cadeira de dentista, sob a tensão do barulho do motor escavando meu dente, percebi que suava frio e mantinha as mãos enrijecidas.

Por: Marilene Depes em 21 de julho de 2026

Numa cadeira de dentista, sob a tensão do barulho do motor escavando meu dente, percebi que suava frio e mantinha as mãos enrijecidas. Foi então que me dei conta de que o dente que estava sendo tratado não doía. A tensão vinha de um passado de sofrimento e dos traumas relacionados aos tratamentos dentários.
Quem morou na roça, como eu, vivenciou experiências semelhantes. Nasci e morei em Soturno até os oito anos. Meu primeiro dentista foi o Sr. Laurindo Sasso, dentista prático e, ao mesmo tempo, dono do cartório. Era um homem calmo e bonachão. Com ele, alguns dentes de leite se foram, justamente aqueles que a solução caseira de amarrá-los com crina de cavalo não conseguia arrancar, método também usado para eliminar verrugas. Lembro-me, ainda, de que o motorzinho era movido a pedal.
Quando vim para a cidade, começou minha via-crúcis. Outro dentista prático, o Sr. Chiqueto, arrancou um dente cuja falta senti por décadas, até o surgimento dos implantes dentários. Naquela época, nossos pais escolhiam os dentistas pelo preço que cobravam. No interior, era comum arrancar os dentes e colocar dentadura. Era mais barato.
O primeiro dentista formado que frequentei foi um abusador. Eu era criança e, além da dor física, precisava me defender, numa época em que os pais raramente davam ouvidos aos filhos.
Depois passei a tratar com Carlinhos Sardenberg. Mas, naquele tempo, uma cárie não era resolvida em uma única consulta. Eram várias visitas ao consultório, entre elas a colocação de um medicamento com gosto de cravo. As salas de espera viviam lotadas e, às vezes, do consultório no Edifício Primus, ele nos deixava na cadeira para resolver assuntos do Caçadores, clube do qual era presidente.
Muitos, por praticidade e economia, preferiam recorrer diretamente aos protéticos. Em época de eleições, eles faturavam alto confeccionando dentaduras e as famosas “pererecas”, cuja duração, ironicamente, muitas vezes não ultrapassava a do mandato dos políticos.
O maior problema das dentaduras era que, com o envelhecimento, a gengiva encolhia e elas ficavam frouxas. Muitos idosos preferiam permanecer banguelas a conviver com o desconforto das próteses soltas.
Hoje elas ganharam outro nome: protocolo. São fixadas por implantes, oferecem muito mais segurança e qualidade de vida. As técnicas evoluíram, os tratamentos se modernizaram, a dor diminuiu. Mas os traumas… esses continuam guardados na memória de quem os viveu.