Crônicas
Realidade controversa
Há mais de uma década, eu e a jornalista Regina Monteiro mantemos um programa de entrevistas, o Entre Elas, inicialmente na TV Sim e, hoje, um podcast no YouTube. Nosso roteiro de trabalho segue, mais ou menos, uma regra: Regina sugere os temas e eu busco os convidados, faço os agendamentos. Utilizamos nossos dons: ela, a imaginação; eu, a organização.
Por: Marilene Depes em 30 de junho de 2026
Há mais de uma década, eu e a jornalista Regina Monteiro mantemos um programa de entrevistas, o Entre Elas, inicialmente na TV Sim e, hoje, um podcast no YouTube. Nosso roteiro de trabalho segue, mais ou menos, uma regra: Regina sugere os temas e eu busco os convidados, faço os agendamentos. Utilizamos nossos dons: ela, a imaginação; eu, a organização.
Minha companheira sugeriu que entrevistássemos uma mulher financeiramente independente — empresária ou profissional liberal — que tivesse decidido não se casar. As razões para essa decisão poderiam ser várias: a própria independência, a estabilidade financeira ou o desejo de não assumir encargos que, supostamente, recaem sobre os ombros femininos dentro de um casamento. Com esse perfil formado em minha imaginação, comecei a procurar a possível entrevistada.
Pedi uma indicação à Regina, procurei entre amigas e imaginei que essa empresária bem-sucedida frequentaria salões de beleza. A partir daí, liguei para vários estabelecimentos, mas as indicações não apareciam ou eram “furadas”.
Em um dos salões, o gerente me sugeriu o nome perfeito: empresária, independente, solteira e financeiramente resolvida. Liguei para ela, que me informou estar namorando. E isso foi acontecendo sucessivamente. Outra empresária, traída pelo ex-marido, ficou tão traumatizada que jurou nunca mais se casar. Entrei em seu perfil e descobri que estava em um relacionamento sério.
Perguntei a uma mulher mais jovem se, entre suas amigas, havia alguma solteira ou separada que tivesse decidido ficar sozinha. A resposta foi categórica: todas querem namorar e casar; apenas não encontraram o parceiro certo.
Outra amiga, mulher inteligente, independente, viúva e que optou pela solteirice há anos, recusou nosso convite para uma entrevista. Alegou que não era nem machista nem feminista e que não iria se expor para não ficar marcada. Acrescentou que esse tipo de tema é coisa de feminista radical. Quando argumentei que sou feminista e favorável ao casamento, até pela minha própria história de vida, ela respondeu que eu não era feminista, pois, segundo sua visão, as feministas odeiam os homens, e assim por diante.
Desisti. As mulheres estão longe de preferir ficar sozinhas. Talvez isso aconteça nas grandes metrópoles, mas, em nossa realidade, a maioria ainda deseja encontrar um companheiro, um “cobertor de orelhas” que as aqueça no inverno.