Crônicas

Três Poderes

Cresci em uma família de sete irmãos. Em minha casa era assim, quando um adoecia, todos adoeciam: sarampo, gripe, catapora...

Por: Sergio Damião em 8 de junho de 2020

Cresci em uma família de sete irmãos. Em minha casa era assim, quando um adoecia, todos adoeciam: sarampo, gripe, catapora… Fora as infecções de pele, couro cabeludo e pediculoses. Quando na Faculdade de Medicina, no curso de semiologia, aprendi que essas doenças deveriam ser escritas como doenças próprias da infância (algo, hoje, inconcebível: por conta de vacinas, cuidados de higiene e melhorias do saneamento básico). Inadmissível, qualquer surto de sarampo. Após quase quarenta anos de formado me vejo em uma situação inusitada. Pois, anos atrás, final do século XX, parecia surreal. Naquele momento, a medicina, e a profissão médica, apresentavam-se: atraente, de ótima remuneração e com toda tecnologia a seu favor. Atraindo jovens e seduzindo pais de alunos. Em tempos atuais, século XXI, a medicina e a profissão médica, bem como, todas as áreas de saúde, retornam à sua realidade: uma bela profissão, que necessita, para seu exercício, altruísmo, coragem e extrema dedicação em sua prática hospitalar. A pandemia do nosso século, século XXI, do novo coronavírus, Covid-19, faz pensar. Sempre busco a literatura para um melhor entendimento. No século XIV, em Florença (Firenze, para os italianos), a população era dizimada pela Peste Negra (bubônica), a primeira pandemia da humanidade. Um escritor italiano se destacou: Giovanni Boccaccio. Escreveu Decamerão. Histórias de sete mulheres e três homens isolados nos arredores da cidade florentina. Cada um relata 10 histórias diárias, em um total de 10 dias. Uma se destaca: Um rico, e sábio, mercador, tinha três filhos e um anel muito valioso. Os filhos, cada um à sua maneira, cobiçavam o anel. O mercador manda fazer duas cópias e entrega, separadamente, um anel a cada filho, dizendo que aquele era o verdadeiro, desde que seguisse o caminho virtuoso. E aquele que seguisse o caminho da verdade seria merecedor do anel e da sua fortuna. A história me lembra os Três Poderes da República brasileira. A Constituição do Brasil ofereceu os anéis aos Três Poderes de Brasília (Executivo, Legislativo e Judiciário). Aos nomeados desses Poderes espera-se a virtude da moderação de um para com o outro para o cumprimento das leis e garantia da democracia. Do Governo Central deseja-se a serenidade no lidar com governadores e prefeitos para as necessidades de cidadãos de estados e municípios e o fortalecimento da Federação.