Crônicas
Uma ferida na história
O tema me aflorou há poucos dias, quando assistia a um show de um humorista negro que apresentava uma lista de coisas das quais os negros não gostam.
Por: Marilene Depes em 29 de setembro de 2026
O Papa Leão XIV pediu perdão, em nome da Igreja Católica, pela participação, pela omissão e pela demora da Igreja em condenar a escravidão. Em nome da Igreja, reconheceu que não pode existir compatibilidade entre a Igreja e uma desumanidade de tamanho vulto.
O tema me aflorou há poucos dias, quando assistia a um show de um humorista negro que apresentava uma lista de coisas das quais os negros não gostam. Entre elas, citou passeio de barco, porque pode despertar uma memória extremamente dolorida.
E refaço um pouco da história da escravização, desde a captura na África, onde os negros eram arrancados à força do seio de suas famílias, acorrentados e obrigados a caminhar longas distâncias até chegarem aos navios denominados negreiros. As viagens duravam semanas ou meses, em porões superlotados, com falta de alimentação e de higiene, doenças e mortandade. Os menos resistentes morriam e seus corpos atirados ao mar.
Assisti a um documentário sobre a venda de escravos e fiquei estarrecida. Havia mais dignidade no comércio de animais. Os negros sofreram todo tipo de abuso: violência física, separação das famílias, exploração sexual das mulheres e restrição de todos os direitos.
Foram mais de três séculos de escravidão no Brasil. Houve resistência e, através dela, os escravizados transmitiam aos descendentes a cultura, a religiosidade e a história de seu povo.
Quando criticam os sistemas de cotas ou outros benefícios direcionados à população negra, sinto-me consternada. Somente quem desconhece a história não admite os sofrimentos dos ancestrais, de um povo que ainda é vítima de tanto preconceito.
A Igreja Católica reconhece o quanto errou ao contribuir, por omissão, para esse processo histórico, somente comparável, em sua desumanidade, aos campos de concentração nazistas. É humanamente impossível não se revoltar contra qualquer tipo de preconceito.