Crônicas

Uma busca para vida

Triste, quero que você entenda leitor, me pergunto, simploriamente, como fazer um paralelo entre as duas situações? Será que o servidor sabe, por exemplo, o que é IA ou o mesmo o que representa um esquema de fraude no mundo financeiro? Sim ou não, cumpre a sua tarefa. E o faz com um carinho emocionante.

Por: Wilson Márcio Depes em 30 de junho de 2026

Mais uma Festa de Cachoeiro. Enquanto assisto ao velho servidor da Prefeitura tentando enfeitar a cidade, pintando o meio-fio das ruas ou podando as árvores que invadem as calçadas, aliás, como antigamente, a Polícia Federal investiga um esquema de fraudes contra o sistema financeiro promovido por um banco digital, de uma instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus. Mesmo não querendo, faço um paralelo entre o servidor que, com carinho e pureza, pinta o meio fio, poda as árvores, com o bispo que controla a igreja.

Triste, quero que você entenda leitor, me pergunto, simploriamente, como fazer um paralelo entre as duas situações? Será que o servidor sabe, por exemplo, o que é IA ou o mesmo o que representa um esquema de fraude no mundo financeiro? Sim ou não, cumpre a sua tarefa. E o faz com um carinho emocionante.

A rigor, não, não sabe o que é inteligência artificial. Como saberia, pois, a festa da cidade nasceu da ideia central de Newton Braga, que, além de unir os cachoeirenses como irmãos, no dia de São Pedro, pretendia saudar aqueles que amavam a cidade mesmo vivendo longe. Sim. A tradição permanece viva: anualmente, o homenageado é recepcionado pelas autoridades, recebe a chave da cidade e visita o busto de Newton Braga na Praça Jerônimo Monteiro, além de outras festividades.

Tudo nasceu, explica Newton, como uma simples ideia, como mais um sonho esquisito como tanto outros que brotam a toda hora na cabeça dos poetas. Ora, qualquer compêndio ensina, por exemplo, que a relação entre o cronista Rubem Braga e a tradicional Festa de Cachoeiro era umbilical. A festividade foi idealizada na década de 1930 pelo irmão do escritor, Newton Braga, e celebra anualmente a identidade cultural e a “saudade” daqueles que nasceram na “Capital Secreta” capixaba. Rubem Braga foi um dos maiores entusiastas e divulgadores desse sentimento bairrista, imortalizando em suas crônicas o amor pela cidade e o famoso “Cachoeirense Ausente”, título que ele mesmo recebeu em 1951. A celebração permanece. Acontece no dia 29 de junho (Dia de São Pedro), e hoje a memória do autor é reverenciada não apenas na folia, mas em espaços culturais administrados pelo município.

Encerro dizendo o está no peito: a bem da verdade, a Festa de Cachoeiro é também hora de um balanço, uma busca de justificação para vida.