Crônicas

Três personagens: uma vida

Iniciou com maconha e logo passou para o crack, no próprio bairro, em local conhecido pelos outros moradores, iniciara-se aos 10 anos. Mostrava alegria e confiança no futuro.

Por: Marilene Depes em 3 de maio de 2021

 

Nesses tempos de pandemia do SARS CoV-2 (Covid-19), lembrei de três personagens em hospital psiquiátrico anos atrás. O primeiro: um menino, 12 de idade, falava e gesticulava como um adulto. Morador de bairro próximo ao centro de Cachoeiro. Iniciou com maconha e logo passou para o crack, no próprio bairro, em local conhecido pelos outros moradores, iniciara-se aos 10 anos. Mostrava alegria e confiança no futuro. Ele solicitara internação à mãe. E, a mãe, desesperada, solicitara a determinação judicial; O segundo: uma menina, 15 anos, uma bela adolescente. Moradora do litoral sulino capixaba. Quadro clínico mental indefinido, um transtorno mental não esclarecido. Internação decidida pelos médicos após familiares relatarem a tentativa de suicídio. Pela história relatada, uma tentativa após uso de drogas ilícitas. Durante a internação alternava depressão e euforia; O terceiro: outra menina, 16 anos. Também moradora de bairro próximo ao centro de Cachoeiro, outra determinação judicial para o isolamento em hospital psiquiátrico. Encontrava-se no último trimestre da gravidez. Queixava-se do incômodo dos movimentos do feto em abdômen. Ao sair do hospital, caminhei pela beira do Itapemirim, o sol aparecera naquele domingo e as águas do rio encontravam-se bem claras. Por um instante esqueci que o menino, dentro de alguns dias, retornaria ao bairro e à droga; a menina ainda pensaria em retirar a própria vida e que a futura mãe não saberia cuidar dela mesmo. Dias depois, visitei, em hospital de clinica geral, uma velha senhora. Apresentava gangrena de membro inferior direito e realizado amputação no terço superior da coxa. Após cirurgia, recuperava-se rapidamente, saíra do coma. Apresentava-se alerta e no dia seguinte referia apetite e solicitava presença dos familiares. Apesar da simplicidade, duas filhas apresentaram-se de imediato. A velha senhora demonstrava uma forte vontade de viver. Na ocasião, eu que terminara o domingo entristecido e sem esperanças com os adolescentes, guardei a vontade de viver da velha senhora e retornei ao hospital psiquiátrico para anunciar ao menino, para a menina que tentara o suicídio e à mãe adolescente. Guardei, também, em memória, para esses dias difíceis da pandemia.